Os dados mais recentes do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) trazem notícias mistas. Por um lado, os indicadores de aprendizagem melhoraram em quase todos os níveis de ensino nos últimos dois anos — um resultado que reflete o esforço de recuperação pós-pandemia e o trabalho de professores e gestores escolares em todo o país. Por outro, as desigualdades entre regiões, entre escolas públicas e privadas, e entre diferentes grupos socioeconômicos continuam sendo enormes.

O Brasil tem avançado na universalização do acesso à educação básica — praticamente todas as crianças em idade escolar estão matriculadas. O desafio agora é garantir que essas crianças aprendam de verdade. E aí os números são menos animadores.

O que o IDEB revela

O IDEB combina dados de fluxo escolar (aprovação, reprovação e abandono) com resultados de aprendizagem medidos pelo SAEB. Os resultados de 2023 mostraram melhora nos anos iniciais do ensino fundamental, mas estagnação ou piora nos anos finais e no ensino médio — exatamente as etapas em que o abandono escolar é mais frequente e o aprendizado mais deficitário.

A pandemia de Covid-19 deixou marcas profundas na educação brasileira. Estudos mostram que alunos que estavam nos anos iniciais durante o período de fechamento das escolas tiveram perdas de aprendizagem significativas, especialmente em leitura e matemática. Recuperar essas perdas vai exigir anos de esforço concentrado.

"A pandemia aprofundou desigualdades que já existiam. Crianças de famílias mais pobres, sem acesso a internet ou computador, simplesmente pararam de aprender durante o fechamento das escolas. Esse déficit vai acompanhá-las por muito tempo." — Pesquisadora de educação da UNICAMP

Professores: o nó da questão

Não há melhoria sustentável na educação sem professores bem formados, bem remunerados e valorizados. E o Brasil ainda tem muito a avançar nessa frente. A carreira docente continua pouco atrativa para jovens talentosos, que preferem outras profissões com melhor remuneração e prestígio social.

O piso salarial nacional dos professores foi reajustado nos últimos anos, mas ainda há estados e municípios que não cumprem a legislação. A formação inicial dos professores também é um problema: muitos cursos de licenciatura têm qualidade insuficiente, e a formação continuada — essencial para manter os professores atualizados — é precária na maioria das redes públicas.

Tecnologia e educação: promessa e realidade

A pandemia acelerou a adoção de tecnologia nas escolas, mas de forma desigual. Enquanto escolas privadas de elite rapidamente adaptaram seus modelos para o ensino híbrido, escolas públicas em regiões pobres mal tinham acesso à internet. O programa federal de conectividade das escolas públicas avançou, mas ainda há milhares de escolas sem acesso adequado à internet.

A inteligência artificial começa a chegar às salas de aula, com ferramentas de personalização do aprendizado e apoio aos professores. O potencial é enorme, mas os riscos também — especialmente em termos de privacidade dos dados dos alunos e de substituição do professor por tecnologia, o que seria um erro grave.

A educação é o investimento de maior retorno para qualquer sociedade. O Brasil que queremos em 2050 depende, em grande medida, das escolhas que fazemos hoje sobre como educar as crianças e os jovens de hoje. E essas escolhas precisam ser informadas por dados, por evidências e por um debate público honesto sobre o que está funcionando e o que precisa mudar.